O Twitter prevê a Bolsa no Brasil? O que descobrimos analisando o sentimento do investidor
Quem acompanha o mercado financeiro brasileiro e é usuário frequente do X (antigo Twitter) sabe que muitos atores desse mercado integram uma comunidade apelidada de "FinTwit". São analistas, gestores, investidores, influencers financeiros e outros participantes que trocam mensagens frequentes sobre ações, juros, inflação e demais ativos do mercado financeiro. Sabendo disso, uma questão me surgiu: será que é possível antecipar os movimentos no mercado financeiro a partir do sentimento dos investidores no X?
Com essa inquietação, elaborei um estudo em parceria com Jocykleber e Ana Karla, que mergulha em um tema cada vez mais presente na rotina do mercado financeiro: a influência das redes sociais nos investimentos. Nosso estudo explora a intersecção entre o antigo Twitter (atual X) e o mercado de capitais brasileiro, buscando entender se o "burburinho" digital pode realmente ajudar a montar carteiras de ações vencedoras.
O problema que investigamos nasce de um grande debate nas finanças. De um lado, a Hipótese de Mercados Eficientes (HME) sugere que os preços das ações já refletem todas as informações e que é impossível "bater o mercado" consistentemente. Do outro, as Finanças Comportamentais argumentam que somos seres humanos, sujeitos a emoções, e que o otimismo ou pessimismo exagerado dos investidores pode, sim, distorcer preços e criar oportunidades.
Para tirar isso a limpo, utilizamos uma metodologia inovadora. Analisamos dados de 394 empresas listadas na B3 entre 2017 e 2022. Diferente de estudos antigos que usavam dicionários fixos, aplicamos Inteligência Artificial e processamento de linguagem natural para criar um "índice de sentimento" dinâmico. Isso permitiu que nosso modelo entendesse que o peso de certas palavras muda com o tempo (como a palavra "COVID", que mudou de contexto entre 2020 e 2022).
O que os dados nos mostraram?
Primeiro, um "choque de realidade": descobrimos que o sentimento no Twitter, no geral, funciona mais como um retrovisor do que como um farol. Estatisticamente, é o retorno passado do Ibovespa que dita o humor na rede social, e não o contrário. Ou seja, o investidor brasileiro médio no X tende a reagir ao que já aconteceu.
No entanto, encontramos uma "pepita de ouro" para gestão de portfólio. Embora o nível bruto de sentimento não preveja o futuro, o Momentum do Sentimento (a rapidez com que o humor muda de negativo para positivo) mostrou-se uma ferramenta poderosa. Carteiras montadas com base na melhora do otimismo, especialmente em ações de baixa liquidez (Small Caps), conseguiram superar o Ibovespa e gerar retornos expressivos. Por outro lado, tentar lucrar com a queda das ações (Short) baseando-se apenas no pessimismo do Twitter provou ser uma estratégia perdedora.
Conclusão e Aplicabilidade
Para assessores, estudantes e investidores, a lição prática é clara: as redes sociais não são uma "bola de cristal". Contudo, algoritmos sofisticados que capturam a mudança de tendência no humor dos investidores podem servir como um excelente filtro tático, ajudando a identificar oportunidades em ativos menores que muitas vezes passam despercebidos pelos grandes analistas.
Convido todos a lerem a pesquisa completa, intitulada "Investor sentiment from X (Twitter) and portfolio formation: Can social media predict winning stock portfolios in Brazil?", que acaba de ser publicada no respeitado Investment Analysts Journal.
🔗 Leia o estudo na íntegra aqui: https://doi.org/10.1080/10293523.2025.2578069

